Ana Costa

Ser sensível abrange a pele, penetra na carne e inquieta a alma.

Textos


       A Intenção Vale Muito Mais...

       O cartão de Dia das Mães feito todos os anos na escola já não era suficiente para Ana. Aos nove anos, ela queria muito mais... Queria dar um presente bonito para sua mãe, mas não tinha dinheiro! Menina caçula de três filhos de um casal, de classe média, separado. Desde os quatro anos de idade que seu pai não mais residia com a família e, apesar de se encontrarem quase todos os domingos, nem passou pela cabeça de Ana pedir-lhe dinheiro para comprar o presente de dia das mães! Lembrou-se, então, de seu cofrinho cor-de-rosa em formato de porquinho que estava repleto de moedas. Retirá-las só quebrando-o e sua mãe descobriria a surpresa! Precisava pensar em outra solução, algo que demonstrasse o seu próprio esforço... Conversou, então, com Theresa – sua irmã mais velha  – que deu a ideia de guardarem a mesada e substituírem o lanche da cantina da escola pelo de casa. Assim, juntariam um bom dinheirinho. 

       Uma semana antes do dias das mães, Ana e Theresa foram à Casa dos Presentes, no Centro da cidade, único local à época que vendia bons produtos. A loja ficava numa das ruas transversais a Rua do Comércio. Lá, certamente, achariam algo especial!  Ana queria muito comprar um grande porta-joias, mas os preços não eram nada doces... Olhou, olhou, olhou até que observou um lindo objeto de porcelana branca, que ela nunca tinha visto. A vendedora apressou-se em explicar que se tratava de um porta-joia especial, pois sua finalidade era guardar uma única peça de grande valor sentimental para a família. Ana examinou-o com muito cuidado, pois realmente era bem diferente: pequeno, formato circular com tampa bem redondinha destacando o desenho de uma dama ‘antiga’ vestida ricamente e com um lindo anel num dos dedos. Todo o acabamento da peça era folheado a ouro!
       A menina, então, lembrou-se da joia mais valiosa de sua mãe: um anel de ouro, que ela chamava ‘chuveiro’ cujas garras, em formato de círculo, eram repletas de brilhantes e no meio, em destaque, uma pedra maior como um botão de uma flor. Ah, se o dinheiro fosse suficiente, ela trocaria qualquer outro presente por aquela pequena descoberta!  A vendedora, muito amável, perguntou-lhe o que mais gostou. Timidamente, Ana olhou para sua irmã e apontou o objeto de seu desejo! Theresa consentiu com a cabeça e a vendedora retirou-o da vitrine e o expôs no balcão. A pequena não tirava os olhinhos daquele porta-joia tão delicado e bonito! Sua irmã perguntou o preço e suspirou quando a moça disse, pois o dinheiro economizado era suficiente para comprá-lo e sobraria para tomarem um sorvete.

       Ana voltou para casa radiante! No percurso tagarelava, sem parar, de tanta felicidade e Theresa compartilhava da mesma alegria! Ao descerem do ônibus, um cidadão esbarrou nas duas fazendo com que a sacola do presente caísse ao chão! As meninas se apressaram em pegá-la e ficaram preocupadas, com um possível problema na 'relíquia' que levavam. E o pior é que elas estavam certas... Ao chegarem em casa, abriram a embalagem e perceberam que a tampa do mini porta-joia permanecia intacta, mas a parte inferior havia se quebrado ao meio. Ana ficou triste e quis chorar, pois ela e a irmã não tinham mais dinheiro para comprar outro presente. Theresa, então, pensou em unir as duas partes com cola, mas o resultado não surtiu efeito. Ana vasculhando a cômoda de sua mãe achou um esmalte rosa e resolveu arriscar... Passou o esmalte nas duas peças e, auxiliada pela irmã,  uniu-as com um elástico bem apertado!

       Nossa, foi uma semana de muita reza e o pedido era um só: colar as duas partes do presente para a mãe! Na véspera dos dias das mães, as meninas cruzaram os dedos e foram examinar a tal 'plástica' que fizeram. As peças colaram perfeitamente!. As duas se abraçaram alegres e se apressaram em recolocar o mini porta-joia na caixinha de presentes com um lindo cartão feito, na escola, por Ana.

       No domingo, Ana foi a primeira a acordar. Pulou da cama e chamou seus irmãos para levarem o presente até a cama da mãe. Ela estava tão ansiosa que não escondia o sorriso! D. Nina ao ver a embalagem de presente sorriu, abraçou os filhos e leu o cartão caprichado, cheio de corações pintados com giz cera na cor vermelha. Ana pediu que a mãe abrisse logo o presente... Assim foi feito! O lindo mini porta-joia estava coladinho, mas com um detalhe: nas bordas da emenda colada sobrava esmalte, ficando visível a ‘restauração’ feita pelas meninas, que se apressaram em explicar o acontecido... D. Nina, com sua sabedoria, disse: "Meus filhos, não se preocupem,  Deus presenteou-me com os maiores tesouros, que são vocês! E o presente que recebo agora é único, nenhuma outra mãe receberá, e guardarei o meu anel com muito gosto!"

       Realmente D. Nina tinha razão... Outra mãe poderia ter ganho um mini porta-joia comprado na Casa dos Presentes, no entanto, a arte da colagem destacando o esmalte rosa era exclusividade da família Costa.

Ana Costa

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Publicado em 15/06/2010 às 16h53


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